Xadrez na Escola - Delegado Flavio Saraiva

FLÁVIO SARAIVA *
O município de Marechal Deodoro é o terceiro do Estado a ser contemplado com verbas do Pronasci – Programa Nacional de Segurança Pública e Cidadania do Ministério da Justiça, destinadas à valorização dos profissionais de segurança pública e ao envolvimento da comunidade na prevenção da violência. Entre outras ações, o programa pretende atingir jovens entre 15 a 24 anos à beira da criminalidade, que se encontram ou já estiveram em conflito com a lei, bem como os reservistas, mão de obra supervalorizada pelo crime organizado.
O município constituiu um grupo de gestão formado por segmentos da sociedade e as forças de segurança para elaborar projetos e enviá-los a Brasília/DF para pegar uma graninha dos R$ 6.007 bilhões do programa. Um dos projetos encaminhados foi o Xadrez na Escola, instigante jogo de tabuleiro onde são empregadas estratégias e táticas. No dia anterior à apresentação dos projetos, uma escola da área rural do município fora arrombada e os ladrões levaram os computadores, jogada desleal contra a inclusão digital dos jovens estudantes.
Assisti à apresentação dos projetos ansioso para que aparecesse o escola segura, projeto que pudesse garantir aos alunos o deslocamento casa-escola-casa de forma segura e, dentro da escola, a segurança dos equipamentos, das instalações e das pessoas. Um projeto que estabelecesse forte disciplina na relação aluno/professor; proibição de ambulantes vendendo de forma descontrolada todo tipo de produto no entorno das escolas; aulas em dois turnos, quadras de esportes com redes, cestas, traves e marcações em perfeito estado; as pichações punidas com rigor e reparação dos danos; furtos lá dentro, nem pensar.
Imaginava o escola segura com as comissões internas de prevenção a acidentes e violência, com foco na prevenção às drogas e álcool; o uso da farda obrigatório e sem boné, aba virada para trás – falta grave; nos finais de semana a família lá dentro em atividades lúdicas, supervisionando a conservação das instalações e acompanhando o desempenho acadêmico dos filhos, livrando-se das enfadonhas e esvaziadas reuniões de pais nos dias úteis.
Foram encaminhados outros projetos com nomes tão abrangentes que logo mostraram minha limitação intelectual para entendê-los, a exemplo do mais ações na cultura. Não foram consideradas as necessidades de formação de mão-de-obra para atendimento às demandas originadas pelo turismo, gastronomia, indústria química, pesca, artesanato, etc, tão importantes para a inclusão dos jovens no mercado de trabalho.
Nessa ambientação insegura, sem disciplina e sem perspectivas, xadrez não é jogo, é destino.
(*) É delegado de Polícia Civil.