O filme do delegado - Delegado Flávio Saraiva/AL

FLÁVIO SARAIVA *
Há poucos dias estive numa delegacia de polícia da nossa capital acompanhando um parente que levava mais uma demanda para o delegado titular da distrital. Como o parente tinha mais uma existente em andamento, aproveitou a oportunidade para cobrar tramitação mais célere no procedimento policial. O delegado, numa sala momentaneamente sem ar-condicionado, retirou o suor da testa e confessou: “Estou aqui queimando o meu filme, pois não dou conta de tanto inquérito”.
A confissão despertou a minha atenção para a exposição que é imposta a um delegado de polícia e, fazendo uma retrospectiva, constatei que poucos conseguem figurar no longa-metragem da vida policial sem máculas no filme. São vários os exemplos de dedicados delegados que enfrentaram incompreensões, principalmente os que ocuparam cargos de direção. Dos que se tornaram secretários de Segurança, lembro apenas de um que, num misto de xerife e Eliot Ness, em curta temporada, não tivera tempo de ter o filme queimado.
Uma delegacia distrital em Maceió documenta, em média, cerca de 400 inquéritos policiais por ano, aí incluídos complicados casos de investigação de assaltos e homicídios. Se o crime investigado alcança grande repercussão, o delegado é cobrado para apresentar, em no máximo 48 horas, as linhas de investigação e a lista dos suspeitos. Se o crime é elucidado de forma rápida, há desconfiança para a eficácia policial; se demora, há alguma força estranha e poderosa a empurrar o caso para a impunidade. E assim, como todo brasileiro acredita ser treinador de futebol, ser especialista em investigação policial também não é nenhuma novidade.
No plantão policial, as demandas requerem do delegado rapidez nas decisões sobre as condutas de criminosos e atendimento às vítimas que lhe são apresentadas, influenciando significativamente na vida dessas pessoas. Se o conduzido preso é pessoa influente e em seguida é liberado, o delegado agiu sob pressão e foi no mínimo benevolente; se mantém preso, abusou da autoridade.
Nas produções do cinema americano o delegado é o mocinho que emprega recursos científicos nas investigações – bancos de dados com DNA e impressões digitais dos suspeitos, exames balísticos de armas e munições que invariavelmente resultam na prisão do criminoso. Por aqui, sem o suporte científico e tecnológico, os inquéritos se acumulam, principalmente os que investigam homicídios, muitos deles sem identificação de vítimas e autores.
Num cenário desse, a crítica de quem fiscaliza a atividade policial determinará que a produção na delegacia anda mal e o delegado deverá ser responsabilizado penal e administrativamente. Como a polícia tem espaço garantido em todos os jornais, o delegado logo se torna celebridade da incompetência. Filme queimado.
(*) É delegado de Polícia Civil (flaviosaraivas@gmail.com).